TRATADO SOBRE A DISCUSSÃO
Uma Filosofia da Impotência Argumentativa
I. DA NATUREZA DA DISCUSSÃO
1. A discussão é a liturgia da impotência. Onde falta criação, sobra argumento.
2. Não discutimos para buscar a verdade, mas para sustentar a máscara da certeza diante do abismo da dúvida.
3. O cérebro não foi feito para ceder. Foi feito para resistir até a morte. A ciência chama de dissonância cognitiva. A filosofia já chamava de orgulho.
4. Quem entra numa disputa de palavras não quer ser convencido. Quer apenas vencer no espelho do outro, confirmar sua própria imagem.
5. Todo argumento é confissão: "Eu não sou forte o suficiente para que minha verdade se imponha por si mesma."
6. A discussão pressupõe que a verdade seja democrática. Mas a realidade é aristocrática: ela não pede licença para existir.
II. DA POLARIZAÇÃO COMO RESPIRAÇÃO DA HISTÓRIA
7. Polarização não é fenômeno moderno. É a respiração da história. A Rússia de Dostoiévski já era trincheira. Cada Karamázov é um mundo que não se reconcilia.
8. As redes sociais não criaram a polarização. Apenas desnudaram o que sempre fomos: tribos disfarçadas de civilização.
9. O centro não existe. É uma ilusão geométrica. Toda posição no mundo é radical quando observada de perto.
10. A moderação é o vício dos covardes. Quem não escolhe lado já escolheu: o lado da irrelevância.
11. Cada época tem suas guerras santas. A nossa é travada em comentários de 280 caracteres.
III. DA INTERPRETAÇÃO COMO VONTADE DE POTÊNCIA
12. Não existem fatos. Existem interpretações. E toda interpretação nasce de um instinto, de uma vontade de potência que quer se afirmar.
13. A objetividade é a maior das ficções. Quem a reivindica apenas esconde melhor suas paixões.
14. Cada argumento carrega consigo um mundo inteiro de pressupostos não ditos. Discutir é colidir cosmologias.
15. A hermenêutica é guerra por outros meios. Interpretar é conquistar território simbólico.
16. O que chamamos de "razão" é apenas a paixão que aprendeu a se vestir de smoking.
IV. DA FRAGILIDADE DO ARGUMENTO
17. O argumento é frágil porque depende de aceitação. A ação é absoluta porque independe de aprovação.
18. Toda lógica pressupõe premissas. E toda premissa pressupõe fé. No fundo, até os ateus são crentes.
19. O silogismo é arquitetura de cartas: uma premissa falsa e todo o edifício desaba.
20. Discutir é querer que o outro confirme sua verdade. Viver é torná-la inegável através do testemunho da existência.
21. A refutação é mais fácil que a criação. Por isso abundam críticos e escasseiam criadores.
V. DO LEÃO DA VERDADE
22. A verdade é um leão. Não precisa de advogados. Seu rugido basta para silenciar os cães da retórica.
23. Quando a verdade precisa ser defendida, já não é verdade. É apenas opinião disfarçada de certeza.
24. As grandes descobertas não foram resultado de debates. Foram imposições da realidade sobre a teimosia humana.
25. A verdade não argumenta. Ela acontece. Como um terremoto que não pede licença às fundações.
26. Copérnico não convenceu ninguém. O tempo se encarregou de tornar sua verdade inevitável.
VI. DO SILÊNCIO COMO DISCURSO SUPREMO
27. A discussão é barulho. A vida é prova. Entre palavras e atos, os atos sempre vencem.
28. O silêncio não é renúncia. É o espaço onde a potência respira antes de se manifestar.
29. Discutir é acreditar que a verdade é débil. Calar é reconhecer que a verdade é indestrutível.
30. O silêncio é a forma mais alta de discurso. É a crítica que não necessita de palavras porque se faz presente na própria ausência.
31. Há mais filosofia num silêncio pensado que em mil tratados mal digeridos.
32. Quem tem algo a dizer não precisa levantar a voz. O sussurro do verdadeiro ressoa mais que o grito do impostor.
VII. DA AÇÃO COMO ARGUMENTO FINAL
33. O que vale mais: uma palavra correta ou um gesto realizado? O gesto é irrevogável, a palavra é vento que se dispersa.
34. A vida só se legitima na execução. É no risco que o homem deixa de ser retórico e torna-se criador.
35. Toda discussão é sombra projetada pela ação não realizada. A ação é luz que dissolve as sombras.
36. O criador não perde tempo em debates. Ele é o argumento encarnado, a tese que anda sobre a terra.
37. A história não se escreve em diálogos. Escreve-se em decisões que se tornam inevitabilidades.
38. A discussão é memória estéril que rumina o passado. A ação é futuro em ato, gestação do que ainda não é.
VIII. DA IMPOTÊNCIA COMO ORIGEM
39. Quem busca convencer confessa fraqueza. Quem vive em potência não precisa ser acreditado.
40. A necessidade de argumentar revela a insegurança do argumentador. O seguro de si age, não explica.
41. Cada palavra dita em defesa de uma ideia é uma confissão de que essa ideia não se defende sozinha.
42. O poderoso não debate. Executa. O debate é o parlamento dos impotentes.
43. A retórica é a arma dos desarmados. Quem tem poder usa fatos, não palavras.
IX. DO CRIADOR COMO CRÍTICA VIVA
44. Não critique. Crie. A crítica mais devastadora é a obra que torna o criticado obsoleto.
45. Uma única criação vale mais que mil refutações. O novo mata o velho por substituição, não por argumentação.
46. O criador é a única crítica legítima do mundo. Sua obra é o "não" mais eloquente que se pode dizer ao status quo.
47. Quem cria não precisa destruir. A criação destrói automaticamente o que não merece existir.
48. A arte é filosofia sem palavras. A ação é política sem discursos. Ambas falam mais alto que qualquer argumento.
X. DA DISCUSSÃO COMO SINTOMA CIVILIZACIONAL
49. Uma civilização que discute demais e cria de menos já começou sua decadência.
50. Os grandes períodos da humanidade foram mudos em palavras e eloquentes em realizações.
51. Quando os filósofos se multiplicam, é sinal de que a sabedoria escasseia.
52. A tagarelice é inversamente proporcional à potência. Quem pode, faz. Quem não pode, comenta.
53. Nossa época fala muito porque realiza pouco. É a civilização da discussão estéril.
CODA: DA SABEDORIA DO SILÊNCIO CRIATIVO
54. No princípio era o Verbo. Mas antes do Verbo era o Silêncio que o continha.
55. A palavra suprema é aquela que não precisa ser dita porque já se fez carne.
56. O sábio não discute. Cria mundos onde suas verdades se tornam evidentes.
57. A última palavra pertence sempre à vida. E a vida não argumenta. Simplesmente é.
"Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Quem tem mãos para criar, crie. O resto é literatura."