πόλεμος

πόλεμος

A Moralidade Como Esconderijo

I.

Toda moral é topografia da covardia.

Não porque nos impeça de agir — mas porque nos permite nomear o limite antes de alcançá-lo. A barata morre sob nosso calcanhar: somos zeladores do higiênico. A borboleta morre sob a mesma sola: somos monstros. A diferença não está no ato — está na distância segura entre execução e julgamento. A moral nos oferece o vocabulário do arrependimento antes mesmo que arrisquemos.

Sócrates inventou o maior dos esconderijos: transformou a violência necessária do existir em problema técnico. “Ninguém erra voluntariamente” — fórmula perfeita da covardia. Se o mal é ignorância, nunca precisarei enfrentar que sei e escolho o que me diminui. A dialética substitui o confronto. O conceito substitui o sangue.

II.

A moralidade não governa comportamento — governa percepção.

Ela não diz “não faças X”. Ela sussurra: “aquele que faz X não é digno de ser tu”. Assim, mata antes do ato. A violência da expansão — única via para amplitude de si — torna-se impensável não porque seja proibida, mas porque é pré-catalogada como monstruosidade.

Heráclito sabia: πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστι — guerra é pai de tudo. Não metáfora: diagnóstico. Tudo que emerge, emerge rompendo. Toda forma nova violenta a forma velha. Crescimento é transgressão ontológica.

Mas Sócrates e seus herdeiros construíram a Grande Anestesia: sistemas onde podemos fingir que nos expandimos sem romper, que amadurecemos sem matar versões anteriores de nós, que pensamos sem destruir certezas prévias.

III.

Nietzsche viu com clareza: a moral cristã-socrática não nasce da força, mas do ressentimento da força. Quem não ousa criar valores inventa a submissão ao Valor. Quem teme a própria violência necessária santifica a mansidão.

A moralidade nos dá refúgio duplo:

  • Contra o caos externo: “o mundo deveria ser X” (e assim não preciso habitá-lo como é)
  • Contra o caos interno: “eu deveria ser Y” (e assim não preciso tornar-me o que posso)

Heidegger aponta para o mesmo desde outro ângulo: a metafísica, filha de Sócrates, transforma Ser em ente manipulável. Substitui acontecimento por objeto. E objeto pode ser evitado, contornado, conceituado à distância. Mas acontecimento nos atravessa — exige presença, risco, coragem ontológica.

IV.

A execução ampla de si exige transgressão porque toda fronteira do que somos foi traçada por medo.

Não medo consciente — medo genealógico, sedimentado em categorias morais herdadas. “Bom pai”, “profissional sério”, “pessoa equilibrada” — cada conceito é cerca invisível. E toda cerca protege, sim, mas contra a amplitude.

A violência necessária não é sádica — é parteira. Violent(o) compartilha raiz com vis (força): aquilo que força passagem. Toda criança rompe o ventre para nascer. Todo pensamento novo rasga o tecido de certezas anteriores. Toda coragem genuína profana algum altar.

V.

Os limites da moralidade coincidem com os limites da covardia porque:

A moralidade não pergunta “o que posso suportar?”
Pergunta: “o que posso evitar suportar e ainda assim dormir tranquilo?”

Onde a coragem termina, ali erguemos um mandamento. Onde não ousamos olhar, ali inventamos um “mal em si”. A geografia dos nossos medos determina a cartografia dos nossos deveres.

Por isso a compaixão morre em círculos concêntricos: não por falta de lógica, mas por economia de coragem. Amar o distante é barato — não exige presença, não exige transformação, não exige violência contra nossos hábitos. A borboleta é sagrada porque sua fragilidade não ameaça nosso conforto. A barata morre porque ousa partilhar nossa cozinha.

VI.

Não há saída na prescrição.

Não posso dizer “seja corajoso, então” — pois isso seria apenas nova moral, novo esconderijo de segunda ordem. A coragem autêntica não é virtude cultivável por técnica socrática. É acidente. É graça. É momento onde a arquitetura do medo colapsa por alguma rachadura imprevista.

O que posso: mapear honestamente o perímetro.

Onde minha indignação moral silencia? Ali está meu medo operando.
Onde meu dever ético encontra exceções convenientes? Ali está minha covardia legislando.
Onde exijo do outro o que não ouso de mim? Ali está minha moral servindo de armadura.

VII.

A moralidade é o sistema que inventamos para nunca precisarmos dizer:

“Eu vi. Eu soube. Eu escolhi meu limite. Eu não tive coragem.”

Em vez disso, dizemos: “Isso não se faz.” E dormimos o sono dos justos.

Enquanto isso, a amplitude possível de nós — monstruosa, fecunda, perigosa — apodrece do lado de fora das cercas que chamamos Bem.


Coda:

Escrever isto já é moral — é tentar domesticar em palavras o que deveria permanecer ato. Mas escrever isto também é transgressão: é recusar o consolo de que “há princípios”. Há apenas nós, no abismo, escolhendo diariamente entre amplitude e segurança.

E chamando essa escolha de Ética.​​​​​​​​​​​​​​​​